Arrumei um trabalho por 3 meses: ajudar um professor da universidade a organizar uma rede de pesquisadores que pretendem estudar serviços ecológicos no norte do país. (friiiiiio.... mas tem diamantes por lá, então eles têm que estudar mesmo, pra cumprir a legislação ambiental, etc etc.)
Nããão.... infelizmente eu não vou fazer parte da pesquisa, Vou só ajudá-lo a montar a proposta. Tipo secretária mesmo. Nada muito emocionante, mas preciso da grana e é um dinheiro fácil, né?
E lá fui eu. Manda email, solicita equipamento, pede isso pra um, leva aquilo pro outro, revisão bibliográfica simples, e tals. Me pedem: “vc pode fazer a minuta da reunião de segunda? Só o básico; os principais pontos do que for dito, dez minutinho pra cada participante.” Sussi. Já fiz milhões de minutas. A pessoa fala, vc anota, organiza em uma ou duas páginas com os tópicos principais, e entrega no fim da reunião mesmo. Blz!
Quando o primeiro palestrante abriu a boca, meu sangue gelou. Ele falava depressa, com um excelente vocabulário (= palavras que eu quase nunca uso e me exigem o dobro de neurônios pra conferir o que significam), uma explicação científica, cheia de siglas, cidades, rios e técnicas que nunca vi na vida.
O que eu ouvia era mais ou menos assim
“Então nós desobstruímos o rio Ainaisssiboinerst, na Sazcatcheuiám usando a técnica RNSPV (ou RMSTV? Ou AR and SPV?!), e obviamente concluímos que a razão da joiksthughr (?!) era o baixo número de ...erhfrhbvblafst.(????!!!) Estou seguro de que todos os representantes da PKLTSS (?) concordam.“
JESUS, ME ABANA!!
Pensa rápido: liguei meu celular... Ufa! Tem um gravador! Fiz minha melhor cara de inteligente, e fui anotando todo e qualquer trecho de frase ou palavra ou espirro que eu conseguisse pegar, e rezei fervorosamente pro gravador ser bom. Eu nunca tinha testado.
Foram 8 horas de tensão, medo, suor e muita pose, com intervalo pra almoço.
Cheguei em casa 7 da noite, exausta como se tivesse acabado de terminar um Iron Man, e infinitamente mais triste. Nem pra secretária eu sirvo por aqui! E todos dizem que meu inglês é excelente, vou me jogar do meio fio...
Liguei a gravação: estava tudo lá. Abafado, com ruídos, e tão ou mais ininteligível quanto antes. Não aguentei fazer mais nada. Dormi.
Terça-feira, mais uma reunião. Mesmo drama, mas sem o elemento surpresa. Quase gritei de alegria quando ao final o chefinho pediu para os próprios palestrantes encaminharem um resuminho. Menos uma!
Quarta-feira: me enfiei na salinha, fones de ouvido, gravação rolando. Caracas, que sofrimento. Tudo tão confuso que minha vontade era ir pra rua recrutar uma pessoa qualquer e pagar pra ela ouvir e escrever pra mim. Juro que quase fiz isso.
Desde então minha vida foi ouvir, voltar, ouvir de novo, voltar, ouvir de novo, e me desesperar.
Hoje (sexta!) acabei! Imagine minha cara quando vi que minha minuta tinha 15 páginas. Não sabia se ria ou chorava. Reduzi, reduzi, transformei tudo o que dava em tópicos, e fiquei com “apenas” 10. Minuta de 10 páginas?! Tá rindo do meu cabelo, né? Mas mandei assim mesmo. Não tenho mais forças.
Mandei por email dizendo que fiz dessa forma para ficar inteligível para quem nao estava na reunião, e que se ele quisesse, faria algo curtinho. Devo parecer uma retardada. Mas quer saber? Fiz o que pude, Da próxima eu já aviso que é melhor chamar uma anglófono de fato pra “minutar”. Se ele quiser trocar de secretária, paciência. Aí eu me ofereço pra cuidar de velhinho ou passear com cachorro.
E hoje eu vou tomar cerveja!